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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

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Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

30.10.08

Uma Sensação de Perda


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Continuo com uma sensação de perda. Uma dor fina, longínqua que no entanto me acompanha constantemente. Tenho a noção que está presente em tudo o que faço e na origem de todos os meus motivos. Analiso e sobreanalizo o porquê. Investigo profundo e não deduzo o que perdi. Pura e simplesmente não sei o que perdi. É estranho. Tenho a vivida sensação de que perdi algo mas algures no tempo esqueci-me do que seria.

Sinto-me triste por ter perdido algo. Vivo na melancolia de ter de viver com essa sensação mesmo sem saber o que é. Não sei sequer se é algo tangível ou se é algum subproduto da minha imaginação. Posso até ter imaginado que perdi algo e agora passo os meus dias amargurado por não conseguir encontrar algo que afinal não existe.

Mas se calhar até existe. Se calhar até é algo de tangível e importante. Algo que pudesse definir a minha vida como algo de melhor. Talvez até me proporcionasse a possibilidade remota de ser feliz.

Talvez seja isso que perdi. Talvez tenha perdido a capacidade de ser feliz. Talvez tenha sido esse o meu crime, a minha falha. Não sei.

E continuo olhando o fundo dos dias com a perda que me acompanha.

28.10.08

O Cadeirão e Eu


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Começo o serão procurando o lugar ideal para me sentar. É sempre o mesmo, está sempre no mesmo sitio, mas eu faço questão de passar algum tempo desconhecendo a sua localização e continuo a procurá-lo. Continuo a investigar os cantos onde eu sei que não se encontra. É a minha busca, é o que me distrai, é um ritual que tenho refinado ao longo dos anos. Meticulosamente obscuro o seu local verdadeiro para que mais tarde possa fingir a surpresa por encontrá-lo ali, no sitio onde sempre esteve. Intocado.

Agora sinto o passar dos dias como um deserto que tenho de atravessar para poder chegar ao conforto do oásis de verga no fim do dia. Sinto que apenas aquele cadeirão me compreende. Aprendeu com o passar dos anos a enformar-se em mim. Conformado ainda range com o desfalecer do meu peso sobre o seu assento, mas continua a me receber como a um velho amigo.

Já temos os nossos anos. Sabemos tudo um do outro. Dividimos as dores do corpo e as dores da alma, vivendo-as tanto quanto as nossas. Temos os nossos momentos de solidão mas usamos o apoio que só um tem para dar ao outro. Às vezes penso em não me sentar para lhe aliviar as juntas. Mas sinto que isso lhe faz falta. Sinto que sem mim a lhe definir o sentido de existir deixa de ter razão de ser e cairia no esquecimento.

No entanto existe e completa a imagem de nós os dois juntos. O velho cadeirão e eu. Baloiçando para trás e para diante, suavemente, pela noite dentro, evitando a madrugada; para que outro dia não chegue ou para que passe depressa e possamos novamente enxaguar as lágrimas da saudade.

Ai nesse momento volto a fingir que não o vejo. Que o procuro onde sei que não o vou encontrar. Quase que oiço o seu lamento juvenil a dizer: “ Estou aqui!”; finjo que não oiço e continuo a procurá-lo como se já não soubesse onde ele está. Crio a espectativa para logo de seguida voltar a afastar-me. Sinto falta dele e ele sente falta de mim. Até que por fim finjo a surpresa do reencontro e delicadamente sento-me e reencosto-me na suavidade do seu conforto e mais uma vez as juntas suspiram de satisfação.

24.10.08

Nocturno


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     O manto indelevel da noite cobre-me de negro. O escuro e o frio oprimem-me num único ponto. Sinto-me desfalecer. Caio na noite intemporal sem nunca tocar o chão. Tenho a sensação de pairar no ar e no entanto a minha alma tacteia a solidão.

      Ela está ali. Está perto de mim. Sinto-lhe o cheiro. Mas ela continua escondida à espera do momento certo para se poder alimentar de mim.

      Mantenho alta a guarda e passo a noite defendendo-me dos fantasmas das memórias passadas. São imagens que me assustam não por serem terriveis mas por nunca me abandonarem. Ficam por perto fazendo-me companhia todas as noites. Todas as noites fazem questão de me relembrar da minha própria inexistência.

      Tento dormir para que os pesadelos possam suavizar a aflição da insónia. Atravesso os minutos que pingam em mim e ensurdeço com o seu clangor.

       Até que por fim chega a madrugada e me prepara para a alegria de um novo dia.

20.10.08

A Princesa dos Malditos


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Acabamos por fazer aquilo que ela entendeu como amor. Eu entendi como uma função corporal equivoca e desadequada. Mas dando-lhe as rédeas da situação ela rapidamente tomou controlo como sempre fazia em qualquer situação e obliquo-se automaticamente fazendo-me testemunha involuntária da sordidez feminina, da sua vulgarização por oposto à sua aparência. Quanto mais angelical mais diabólica. Perversa nos seus pélvicos movimentos. Insaciável, sugar-me-ia para dentro dela se a biologia o permitisse. Ávida de prazer e de mim. Queria-me dentro dela para sempre fazendo-me desistir de existir para nunca mais lhe fugir do amplexo vampírico que a tornava a princesa dos malditos.

12.10.08

Precoce Fantasia


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Os perfumes e os lençóis, a penumbra de luz dormente e os licores de menta, óleos de massagem e livros eróticos, até um banho de espuma circundado de fruta, a musica de tons suaves e o seu olhar lânguido. Ostentava roupas de verão transparecendo os tecidos minúsculos que falhavam completamente a tarefa de lhe cobrir os pormenores.

Vestida de quase nua, imberbe e solene não faltara nada à sua precoce fantasia, tinha pensado em tudo, não lhe faltara nenhum requinte de malvadez.