Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

14.01.09

O Escultor


100destino

( sem nada de mais para postar resolvi reviver outros tempos, este é muito velhinho foi escrito em 1995, tinha eu p'rai uns 5 ou 6 anos :P )

 

 

A arte das fracas e doentes mãos de um velho escultor cego. Que na solidão das noites de Inverno esculpia os pequenos tacos de madeira que depois queimava para se aquecer. Poucas foram as peças que resistiram. O seu amor à arte que possuía só é comparável às trevas causadas pela sua invalidez. muitos mortais invejam o dom do pobre escultor, que se auto-imortaliza com a beleza dos seus objectos.

      Como um poeta, um amante, um cantor; ele entrega-se, devotado, escravo do seu destino, da sua paixão, do seu amor pelas formas que não pode ver... só sentir.

      Noites a fio.

      Dias intermináveis.

      Passa o poeta da madeira, desbastando o tronco e descobrindo ai o sentido da sua vida, o seu amor pela arte... O que antes era um lenho grotesco descobre-se nas suas novas formas.

      O poeta questiona a sua existência na poesia.

      O escultor responde-lhe nas mais belas formas que a sua alma pode imaginar.

      Cortar, talhar, desbastar a madeira... sacrifício.

      Frieiras, calos, cortes. Pobres mãos; como montanha abalada por um terremoto, pelo movimento insano das placas tectonicas!... Esticando, encolhendo, enrugando... envelhecendo!

     A dor dificulta o trabalho. Tanto as mãos tremulas, como a mente dorida maltratada pela vida.

      Chora. A sua lágrima escorre; percorrendo um tumultuoso caminho pela sua face envelhecida. a dor, o ódio, a raiva; todas as emoções o trespassam como se fosse esfaqueado à traição.

      O rancor por não poder ver a sua obra. Ele odeia Deus..

     Que Deus pode ser tão terrível ao ponto de retirar a visão a uma pobre criança? Castigar um inocente, um ser puro, sem pecado. Tal crueldade não é digna de um Deus...

      Tal poeta que não sabe rimar.

      Tal pintor que não sabe pintar.

      Este frágil escultor não pode ver a beleza, a delicadeza, o pormenor da sua obra.

      Mas... A vontade... A força de uma vida angustiada, de um amor impar, faz os doloridos músculos e os reumáticos ossos talharem mais um pedaço da maligna madeira, que tanta resistência procura ter, como se tentasse prolongar a dor do quase moribundo escultor.

     O amor à madeira veio substituir o amor à sua adorada esposa que o seu filho lhe roubara na hora do parto. O escultor devota toda a sua perícia nos últimos entalhes. O pequeno canivete abate-se sobre as minúsculas fibras da madeira como o machado do lenhador na resistente arvore.

     A obra está pronta!...

     Dias. Noites sem dormir.

     Semanas sem descansar.

     Perdeu a conta do tempo que passou junto daquela peça.

    Amor e ódio vão e vem simultaneamente como ondas chicoteando a areia da praia na maré-baixa.

    O seu corpo foi a areia... E a vida foi o chicote.

    Ele ama o seu trabalho. seu dom manifestou-se na forma mais pura e magnifica.

   Tal beleza... Não pode ser descrita. Nem por um poeta. O mais famigerado dos poetas ficaria mudo com a sua delicadeza.

   Mas, no meio da emoção, da felicidade... surge o ódio, o rancor; como doença súbita e fatal. O escultor odeia a sua incapacidade, a sua invalidez.

   Odeia-se.

   Odeia todos.

   Homem religioso, digno, honrado. Sem pecados... só sofrimento.

   Ele culpa Deus pela desgraça da sua vida.

  Fora de si, mergulhado na fúria, no ódio que sente pelo destino; pensa na sua mulher, no seu filho, nos seus olhos... na estatua.

  Deus... Porque o fizeste?...

e num rasgo de emoção, de dor indescritível ou de fé...

  O escultor deseja ver a sua obra.

  O milagre dá-se; o seu pedido foi atendido. Não sei se por Deus ou pelo Diabo.

  O escultor viu!... Por breves momentos ele vislumbrou a sua arte, a sua maestria, a beleza magnifica da pequena e delicada estatua.

  E por momentos os seus olhos tornaram-se pequenos lagos, onde já não existem peixes.

  O velho escultor suspirou... e morreu...


 

07.01.09

Alter-ego


100destino

Cerro os punhos para não gritar. Para não atiçar as unhas na fronte maligna desse brilho escuro que me entorpece. Prostrado, respiro como quem se afoga sem no entanto chegar morrer. Afundo-me no colchão negro escondido desta ausência de sons. A falta de sons que no meio desta cacofonia que me aflige os nervos e me faz chorar pelos poros. Sinto a sua mão profunda amarrando as minhas vísceras fazendo-me agonizar em fôlegos de sangue. Desconjunto todos os segmentos do divino porque penso que este é o meu inferno. Sinto um desejo de andar sem pernas, uma vontade de cair para cima em absolvição e substituir esta forma de viver com outra coisa qualquer. Outra vida longe da percepção da dor constante que me desconjunta o peito em mil pedaços graníticos.

Não aguento mais este jogo de tentar encontrar o preto no escuro e dando sempre de caras com a negritude da minha alma. Suja, imunda, conspurcada pelos acessos de sobresconsciência e pelas vozes do desejo, que sei não serem minhas, nunca foram minhas, mas existem em mim, ecoam em mim, bem dentro do meu pensamento. Julgo serem vozes de uma outra pessoa, alguém que vive por mim no meu lugar. Alguém que aprendeu a falar por mim, que não pensa por mim mas age por mim, alguém que sorri sem a minha autorização e que no fundo quer o meu lugar, a minha vida, condenando-me a esta existência escura, escondido, incógnito e lavado em lágrimas de ódio por não conseguir fugir deste destino, desta posição fetal que me calcifica as articulações e no fundo tenho medo que um dia surja a queda abrupta do esquecimento e assim desse modo seja sentenciado à morte.