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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

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Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

29.07.16

Um mundo cinzento que me atormenta.


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     Existe algures dentro de mim um mundo cinzento que me atormenta. Obscurece a planície onde os sentimentos deviam florescer. Algo de bom devia de existir dentro de mim. Na escuridão, procuro tateando dentro de mim por algo sólido mas tudo me foge pelo fumo dos dedos.
     Pedro surge, exibindo ritmos, batidas. É como se fosse um porta-estandarte dos sons que conquistam os cinzentos. Exorciza o pior de mim e tenta de alguma forma me salvar de corroer por dentro.

28.07.16

Um momento solar por si só.


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      Pedro passa os dedos pelas teclas do piano e a cada toque surge uma nota, um pequeno som indiferente. Um momento solar por si só. Ninguém dá por nada. Já ninguém escuta o marulhar das ondas no infinito reverberar da melodia.
      Sónia começa a murmurar na febre. Está quente, infetada, afetada. E pedro segue uma tecla a seguir a outra. O ritmo começa, continua e sobe. O miador enrolado em si espreguiça-se esticando as orelhas. A música invade o espaço lutando com os fantasmas que existem nos cantos inabitados do edifício.

27.07.16

Posso perder- me. Quero perder-me.


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      Apetece-me levantar voo deste existir perverso e voar para um país distante onde seja proibido sofrer. Bater as asas plumadas e seguir um caminho predestinado sem fazer perguntas e que o vento solarengo me leve a um sítio qualquer onde nunca tenha estado.
      A voz de joana diz para não me perder. Sim. Posso perder- me. Quero perder-me. Quero perder-me e nunca mais voltar. Erguer-me em tentação, largar as rédeas do fervor e na paixão sucumbir a todas as vontades do corpo.

26.07.16

Hoje a angústia não dorme.


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      A insónia surge quando menos se espera. Passo as unhas pelo rasurado do chão e nos dedos cravo pedaços de vidro. A pele rasga-se. Sucumbe às arestas finas e acutilantes do silêncio. Hoje a angústia não dorme. Da sombra, a melancolia aparece de garras afiadas pronta para dilacerar qualquer esperança.
      Serei capaz de voltar a escrever? Será sónia capaz de voltar a pintar? Joana canta naquele quadro à beira-mar. Acompanhada de gaivotas, vestidas de fato e andando de um lado para o outro com as mãos atrás das costas. Num momento param, olham de esguelha e assustadas levantam voo.

25.07.16

Escondida na noite do medo.


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     O mundo, a realidade, seria a nossa fantasia. Dormiríamos nus, tapados com as páginas inacabadas de uma história passada no calor tropical. As meias palavras nunca terminariam neste universo parado no tempo. Deitados um no outro, enroscados no chão, uma das pernas dela sobre mim e a cabeça do meu ombro. E dentro de mim nasce a sensação de que o mundo poderia acabar assim.
      Porque é que existe esta solidão dentro de nós? Vivemos como um animal que amestramos. Tornamo-nos insensíveis ao longo do tempo. Com medo que este nos magoe. E lentamente vai surgindo aquela dor pequena, que nos acompanha os passos, escondida na noite do medo.

22.07.16

Podíamos ficar ali para sempre.


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      As borboletas pousavam suavemente nos dedos de sónia. Conheciam o solene sabor da amizade. Batiam as asas num ritmo e a música surgia à beira-mar. Nós dois, as gaivotas e as borboletas cantavam músicas de cor e paixão.
      Podíamos ficar ali para sempre. Dentro daquele quadro, enquanto sónia pincelava uma imagem de nós mesmos. Dentro do manuscrito podíamos viver como quiséssemos.

21.07.16

Ela fazia-me feliz.


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      Talvez seja um ciclo de crescimento. Talvez tenha de aprender a evaporar o espírito e condensar numa pessoa melhor. Sónia abre a janela e pede que a chuva nos siga como naquela manhã na praia. Sónia com o seu vestido branco era a minha noiva. Tão linda, tão alegre.
      No céu da praia batem as asas as fotografias de todos os momentos que vivemos juntos. Beijos, amizades, o seu sorriso iluminado. Fizemos uma viagem a um país de borboletas. Lembro-me de ser feliz. Ela fazia-me feliz.

20.07.16

Sinto-me queimar por dentro.


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      Pedirei desculpa pelos meus pecados na esperança de encontrar joana. Pode ser que encontre pedro ainda vivo. Que nada disto tenha acontecido. Peço perdão porque eu, pura e simplesmente, não sabia melhor. Nunca soube o que fazer. Nunca soube como salvar joana. Como salvar a sónia, o pedro. Como me salvar a mim mesmo.
      É como se estas fagulhas que se elevam pelo ar fossem pedacinhos incinerados da minha pele. Sinto-me queimar por dentro. A cada fôlego, o ardor é insuportável. É como se todas as células tivessem a se desagregar. Lentamente descolam umas das outras numa dor eterna, insuportável.

19.07.16

Todas as emoções num único gesto.


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      Joana canta e as suas borboletas esvoaçam as suas melodias de avião por este estúdio à beira-mar. Enquanto sónia pinta as leves pinceladas de vários tons de melancolia.Diz que há-de condensar todas as emoções num único gesto. Que guardará toda a vida dentro de um quadro só. Uma única emoção que, de tão intensa, possui dentro de si todas as outras. 

       Pedro resolve sair de dentro de mim e tenta retirar o quadro da parede. Peço que não o faça. Pode levar o manuscrito. Eu colarei as folhas chamuscadas. Como fénix, voltarei a escrever as páginas incineradas. Irei devolver os anjos que roubei aos seus pedestais.

18.07.16

Um cheiro de maresia.


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      Não me recordo ao certo se joana existe. Se existiu ou se é um fruto da imaginação sofrida. Quando olho para ela sinto uma pequena dor. Como se a minha vida tivesse perdido um pedaço de mim. Um pedaço que não consigo recuperar.
      O propano ofusca-me os sentidos e faz com que o meu peso desapareça e me eleve no espaço como fumo de incenso deixando um cheiro de maresia que juro que sai do quadro.

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