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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

Tudo parece andar para trás.

Agosto 16, 2016

      Subitamente, surgem as borboletam em voo planado. O vento assobia pela ponta das asas das gaivotas que voltam ao quadro original. Tudo parece andar para trás. Tudo parece afastar-se de mim. Deixando-me uma vez mais sozinho.
      Uma mão na minha face e sónia a olhar para mim. A sua face triste, produzindo lágrimas de cristal que, ao caírem no chão, estilhaçam-se em pequenos pedacinhos de vidro. Vai deixar-me, abandonar-me no caminho que ainda tenho de percorrer.
      Eu sou o rapaz que se perdeu dela.Talvez eu seja a pessoa que se perdeu dentro do que escrevia. Sou o escritor que escreve a sua própria vida e vive a vida que escreve. Sofro porque escrevo que sofro. E na angústia, corto os pulsos no gume afiado das palavras porque só assim, essas palavras podem existir no âmbito do manuscrito.

Não há espaço para respirar.

Agosto 15, 2016

      Por todo o lado surge uma escuridão líquida que se aproxima. A cada momento as paredes estão mais próximas, maiores, o espaço encolhe, diminui. Não há espaço para respirar. Não há espaço para existir dentro destes limites que nos impomos.

      Sinto que chove. Chovem umas gotas límpidas, cristalinas. Mata a sede, sustenta, pingam na pele e são absorvidas. Rejuvenescem a pele cicatrizada. O sangue pulsa de novo, alimentado pelas lágrimas de uma nuvem pintada no quadro do teto.
      No céu, um quadro, uma pintura e nela um teto, um espelho que reflete todos os estados de espírito. Algures aqui dentro alguém existe fora de si. Maior que si própria e envolta num desgosto infinito.

Algures no espaço toda a realidade parte.

Agosto 12, 2016

      Esperam pelo momento em que finalmente tudo acabe. Que a justiça seja feita e que paguem pelo crime de viverem dentro de mim. Espero que a tortura de viverem mais um dia termine numa síncope lenta, eterna. Sinto o cheiro da morte.
      Sónia fundida na joana começa a descolar-se da pele que estica como membrana de um tecido só. Somos todos feitos do mesmo tecido? Da mesma carne… Algures no espaço toda a realidade parte. Pedacinhos por todo o lado, sentimentos, imagens, ideias. A cada revolução o presente torna-se um caleidoscópio em rotação. 
      Cada uma toca a pele da outra e pedro escreve um manuscrito enquanto, lentamente se dissolve nos ácidos da criação. A tinta que derrama é o sangue que escorre na fissura de uns pulsos cortados na ânsia de acabar com a dor da distância.

Os subúrbios da alma.

Agosto 11, 2016

      Vivo para me perder. Dentro de mim existe uma força mais forte do que eu. Mais forte que a própria vontade. É como um espectro fantasma que germina. Cresce dentro de mim. Um parasita na véspera de me tomar de assalto. Morrer no fim de tudo é um princípio.
      De súbito, sou eu na praia a escrever nas teclas do piano que voga pelas ondas duma maré insatisfeita. Os subúrbios da alma escondem criaturas negras que nos ferem no âmago.
      A solidão ferve-me os nervos nesta angústia que vai e vem num turbilhão de opressão. Às vezes sinto que estou acompanhado duma solidão conjunta. As vozes na minha cabeça chamam por mim. Clamam por um fim.

O pórtico do céu.

Agosto 10, 2016

       No céu do teto abre-se uma porta para uma outra dimensão, onde seremos julgados pelo crime do niilismo estético. Para os demais a paz é um país longínquo, apagado dos mapas roçados de uma memória imberbe.
      Quero ser eu. Quero chegar ao ponto em que nada mais se sobreponha à necessidade vítrea de encontrar a minha pessoa. Algures dentro de mim eu sei que existo.

      O pórtico do céu é um mundo novo onde as pinceladas em tons de vermelho revelam um mundo onde nenhum de nós viveu. As imagens vão e vêm como metáforas aladas, banhadas por um espírito de luz. Na penumbra indistinta chegam a mim os beijos perdidos de um passado desconhecido.

De onde lhe vem a inspiração?

Agosto 05, 2016

      E eu, percutindo os dedos nas teclas sem saber de me onde vem a inspiração. Pedro, ao fundo com o manuscrito na mão, joga folhas ao ar. Diz que com o cair de cada linha se consegue uma prosa sublime. Está a conseguir escrever. Pedro não consegue escrever. De onde lhe vem a inspiração?
      O manuscrito voa pelas paredes, pintado de letras fugidias. As gotas de tinta fogem do papel formando palavras no ar que se juntam às borboletas da canção que joana toca, pintada pelos dedos húmidos de sangue de sónia.

Sónia e joana amam-se sem pudor.

Agosto 04, 2016

       As tintas derramam-se nas teclas dos pianos deixando o soalho aspergido de sangue. Sangue nas minhas mãos, as mãos de pedro nas minhas. Apetece-me escrever no branco das teclas pequenos haikus. Desenhar as letras lentamente. Levar todo o tempo do mundo meditando sobre a métrica e a rima até conseguir o poema perfeito.
       Sónia e joana amam-se sem pudor. Envolvidas numa nuvem branca de algodão que paira em redemoinho no meio da sala. A música torna-se ensurdecedora ao som da maré. Mesmo as borboletas e as gaivotas descobrem num jarro um paraíso perdido onde pernoitar do tumulto da viagem.

Um anjo não toca no chão.

Agosto 03, 2016

      Entra no quarto toda nua, exibindo os seus peitos húmidos da água do mar. As suas coxas grossas limitam o triângulo hirsuto no seu baixo-ventre. Os seus pés não chegam a tocar o chão. Um anjo não toca no chão.
      Sónia eleva-se no estrado do piano e beija pedro convidando sónia a juntar-se-lhes. As duas efémeras nuas, envolvidas num abraço em espiral, atadas à melancolia da melodia. O espírito gasoso da comunhão sobe pelas paredes, calcinando o livre arbitro. A pele na pele, quente, o suor exaspera nos poros o fulgor magmático da paixão.

Fugir para sempre com o marinheiro oceano.

Agosto 02, 2016

      As mãos de pedro voam indiscriminadamente sobre o plano do teclado e, da soma dos seus dedos encandeiam-se sons uns nos outros, sem se descortinar a diferença. Onde começa um e acaba outro e todos juntos fazem o fio ondulante da melodia. Onde pousam, umas atrás das outras, as borboletas cantadas de joana.
       A música continua e joana sai do quadro. Como se fosse uma janela rasgando-lhe o vestido de noiva. Este fica jogado na areia dourada. A maré vai e vem, lentamente movendo o vestido um pouco de cada vez. Até que este se embrulha no enrolar das ondas. Envolve-se amorosamente com o mar. E resolve abandonar quem o abandonou e fugir para sempre com o marinheiro oceano.

Neste ponto a consciência é uma coincidência.

Agosto 01, 2016

      Os dedos de sónia na minha boca, doces. Beijo as falanges como se fossem as pontas dos pés. Ela murmura algo ao meu ouvido e eu não oiço. Neste ponto a consciência é uma coincidência.
      Sigo pelos seus dedos como se fossem pernas e passo os meus lábios entre os joelhos dos dedos. Na base da mão juntam-se as bases dos dedos e beijo-lhe as virilhas suaves. No momento que sugo a zona entre os dedos sónia exulta no seu orgasmo.

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