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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

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Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

25.01.20

Linda e Perfeita, Feliz, Longe de Mim.


100destino

Esperei sozinho, de pé, imóvel no meio da multidão. Naquela plataforma onde passavam milhares de estranhos compenetrados na sua própria indiferença. Fiquei por um momento a olhar a chuva que ribombava no telhado de zinco. A coluna de som troteava uma voz de gaze que augurava os atrasos de que toda a gente suspirava de infortúnio. Eu estava rodeado de caras estranhas que nem sequer davam com a minha presença. Mas ali fiquei na esperança de te ver. De mais uma vez escondido te pudesse ver passar mergulhada no teu casaco de lã, pensativa, a esconder a cara do frio e da humidade, apressada para entrar no comboio. Ali fiquei como um pedinte, à espera da esmola de te ver passar, longe, linda e perfeita, feliz, longe de mim.

03.01.20

Despido da Vitalidade de Ti.


100destino

Fiquei sob o vão daquela escada. Encostei-me à parede húmida e fria. Precisava de apoio. Alguma coisa palpável onde pudesse assentar esta dor. Onde abandonado pudesse adormecer, anestesiado pelo cansaço. Aninhei-me escondendo o corpo ao vento que trazia a cacimba da madrugada. Estava doente, sabia que isto de viver não duraria muito mais. Enrolado em mim mesmo tento esquecer esta dor. Tento esquecer esta lança venenosa que me penetra o coração. Este cruel desespero de já não te ter comigo. O que mais me resta senão o sacrifício deste corpo que no fim de contas nunca foi meu? Sempre foi o invólucro onde eu cosi o preço das minhas desilusões. Chega o dia em que todos temos de pagar, mesmo que seja numa noite fria, de uma madrugada perdida, numa rua que desconheço o nome, na companhia de gatos vadios e garrafas de vinho que pingam gotas de azedo. Espero que seja desta vez que expire o infortúnio de viver num corpo sem alma, ao som de um bater do coração oco, moribundo, despido da vitalidade de ti.