Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

15.07.09

Beira Mar


100destino

 

Passei a praia de ponta a ponta fazendo companhia as conchas desabitadas. Surpreendendo as gaivotas de fato, empoleirados no alto da sua perna e investigando-me com a inclinação de um só olho. Gostava de saber cantar, gostava de tocar um hino à imensidão, ao mar e aos seus habitantes. Gostava de sair por ai na crista de uma onda e desembocar numa praia desconhecida para morrer em paz.

Olho longe na bruma, lá longe bem longe, o mais longe que consigo enxergar e tento ver o outro lado do mundo. Onde será mesmo o outro lado do mundo? Existirá um outro lado do mundo? Quem estará lá? O que será que faz à beira mar olhando para este lado. Será que se interroga se existe algo deste lado interrogando-se sobre o que estará do outro lado? A vida é feita de impossibilidades e essa seria só mais uma. Uma que no entanto possui um ligeiro carinho, um ligeiro conforto. Saber que podemos encontrar uma alma gémea do outro lado do mundo e por vezes poderá até ser mais provável do que encontrar essa mesma alma aqui perto de nós.

Continuo a andar na direcção do infinito e passo a passo apercebo-me do toque da areia. Suave, húmida, salgada. A cada passo investigo o seu toque na minha pele e a massagem descontrai-me o espírito. Como é possível que milhares de partículas, cada uma com o seu formato, possam unidas se tornar um único objecto desta magnitude e apesar de tudo conservar uma simplicidade assustadora. Aumento o peso do meu passo para sentir mais areia e ela dengosa desliza e me envolve os pés. É como se estes pedacinhos de areia neste momento fossem só meus e perfeitos para mim. Como uma pequena moldura tridimensional feita por um artesão de magnifico talento que conseguiu captar perfeitamente os detalhes e entalhes dos meus pés e dos meus passos. Tento surpreender a areia saltando de um lado para o outro mas ela sabe prever o meu intuito e parece estar sempre à minha espera para me receber e convidar a desfrutar deste delicioso fragmento do planeta Terra.

Desconfiadas as gaivotas levantam voo em bando como uma folha esvoaçando na primeira brisa. Voar, voar, voar, batem as asas e voam. Para longe de mim. Naquele momento eu represento uma ameaça. Em que ponto terei me tornado uma ameaça? Em que ponto terão elas decidido voar para longe do perigo. Eu também gostava de ser assim. À mínima e leve ideia da presença de um perigo, de uma ameaça, um gesto assustador; também eu gostaria de poder bater as asas e voar para longe. Subir alto, muito alto no céu acima das nuvens, olhar ao meu redor e observar longe as maravilhas do mundo. Aposto que em segundos já não me lembraria da razão pela qual tinha levantado voo.