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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

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Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

08.08.10

Mágoa


100destino

 

     Sempre existiu esta mágoa. Este não sei quê de insatisfação. Uma pequena dor, longínqua, perdida lá no fundo, um eco que mal se ouve, reverbera pelas fibras do ser quase sem se ouvir, quase quase sem se notar, interminavelmente.

     Passo as noites tentando adormecer sobre esta ténue angustia que habita em mim. Há dias que não consigo, há noites que luto contra a elevação da pálpebras, finjo investigar as tonalidades de escuridão: preto, negro, breu; tudo serve para tentar entorpecer esta sagacidade do espírito. Mas nada funciona, tudo atrapalha.

     Uma dobra no lençol, a posição da almofada. Hoje está dura, amanhã estará mole, vento nas frinchas, agua que pinga algures, gemem os espíritos da mobília sobre o alastrar do calor. Fico alerta contando os segundos e os olhos cansados não se fecham, não descansam, permanecem nesta vigília tectónica pelo interior da alma.

     Passo a noite vestindo o escuro tentando diluir-me, misturar-me com as fibras da realidade para que talvez conseguia me perder nas dobras do sonho, percorrer os seus vales, dunas, encostas paliativas e momentos de frescura sem dor.

     Às vezes duvido. Duvido de mim, dos outros, das minhas ideias, percepções. Nada faz sentido. Não encontro um único propósito em que me consiga concentrar.

     Sinto que me falta algo. Um sentimento, uma sensação, um gesto, um cheiro, talvez um toque, um beijo em lábios desconhecidos, uma usurpação do corpo que deixasse o espírito dormente. Entorpecido por um êxtase profundo.

     Talvez seja isso. A procura incessante de quebrar barreiras impostas pela realidade, revalidar os votos da satisfação e ultrapassar os limites do prazer, desfazer as costuras deste corpete avassalador que nos domina e abraçar-mos todas as possibilidades do viver supremo.

     Fico pensando nesta dor mínima, lá longe num recanto escondido, mas de vez em quando dando de si, mostrando-se, dizendo: não te esqueças de mim, estou aqui contigo não te irei abandonar, crescerei a cada desejo que eliminaste, cada gesto interdito, cada palavra que evitaste. Serei cada vez maior, gigante, mais e mais e procurarei outros espaços da alma, multiplicarei-me em formas e funções até que a tua vida se torne insuportável.

     Não esqueço esta dor que me acompanha. Esta insatisfação que nunca acaba, estes momentos de introspecção melancólica que tanto me definem os passos. Assustam-me o sono para longe até que por fim a madrugada chegue com a frescura invernal de um outro dia, outra possibilidade.

     Talvez, quem sabe, outra hipotese de ser feliz.

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