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100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

100Destino

Onde um destino sem destino procura um destino entre cem.

26.08.16

Toda a gente precisa de atenção.


Paulo José Martins

     Olho as minhas mãos, os dedos estão vermelhos, inchados. No dedo médio já existe um encaixe fabricado pelo poisar da caneta durante horas e horas de esculpir as palavras. Quilómetros de frases sem sentido aparecem, vão, voltam e subsistem. Insistem comigo, falam de coisas que não compreendo. Como é possível não compreender o que sai de dentro de mim?
     Olho o quadro na parede e este encontra-se inamovível. Preso na escuridão de um canto iluminado. Está ali. Pura e simplesmente existe. O miador sobe para a secretária, roçando o corpo na pilha de livros que me servem de apoio.
     Ao lado, o bonsai de glicínias jorra os seus violetas sob o tampo desgastado da secretária. O miador ronrona olhando para mim, precisa de atenção. Toda a gente precisa de atenção.
     Chega-se ao ponto de não saber o que é o passado ou o que é a imaginação. Soltam-se as folhas ao vento soprado pela voz da criação e dentro desta, o mundo existe à potência de si. Multiversos de ficção surgem dentro do autor como se ele fosse a nascente da sabedoria. Não existe sabedoria dentro de um escritor.

25.08.16

Interminavelmente.


Paulo José Martins

     Existe uma entidade superior que me possui por dentro a guiar o que devo ou não fazer. O que devo sentir. É como se a sua longínqua mão penetrasse dentro do meu coração e apertasse os dedos dentro dele. Delimitando quando pode ou não bater.
     O miador roça-se nas minhas pernas por debaixo da secretária. Procura um aconchego nos meus pés. Como será viver num mundo desprovido de afazeres? Sem o drama da procura interior da próxima palavra? Da frase que se nos escapa por entre os dedos incapazes?
     Fazer e refazer o mesmo pensamento e a mesma dor. É como se a vida fosse uma espiral de dor que volta sempre ao mesmo sítio. A dor só existe se for vivida uma vez e outra, interminavelmente.

24.08.16

O beijo surge a medo.


Paulo José Martins

     Espero que os estilhaços penetrem a pele e abram espaço para que a tristeza sangre os seus afluentes de prata. Sonia chora perguntando como se pode perder uma pessoa que está ali mesmo à sua frente. Como se pode perder um abraço apertado.
     O beijo surge a medo. Existe o medo que a rejeição vença a melancolia e sobreviva ao ataque carnívoro do menosprezo. Os meus dedos são como agulhas que chovem sobre os olhos cegos deste lacrimejar salino. A culpa é do piano e dos seus haikus escritos no passadiço das teclas moribundas.
     Seria tão fácil de falar sobre faces felizes e paisagens utópicas, amor, paixão e finais felizes. Mas dentro do manuscrito existe uma resistência à realidade que me enfrenta e domina.

23.08.16

De olhos fechados pela insónia.


Paulo José Martins

    O que existe? Quem serei eu senão uma obra de ficção inacabada. Um personagem esculpido num granito defeituoso que sob a força do escopro cindiu. Partiu pela parte mais fraca detonando migalhas de vidro em várias direções. Deixando atrás de si a fraca imagem do que antes foi.
    Um vago reflexo daquilo que poderia ter sido. Luto contra a insónia exasperante. Noites e dias passam como estrelas cadentes e eu de olhos fechados pela insónia não consigo senti-los passar.
    Este desespero que cresce e cresce ao ponto da angústia esticar as suas raízes para fora da pele. Pareçe que não aguento dentro de mim. Ponho os ouvidos à escuta e oiço o ruminar interior de um coração que definha na solidão agreste das letras.

22.08.16

A chave fictícia da entropia.


Paulo José Martins

     Escuto o marulhar dos pés nas agulhas de vidro. Ribombam as pétalas dos hibiscos ao vento norte. As janelas recusam-se a compreender a chuva que canta nos caixilhos.
     Dentro de mim escorre este sangrar, este rio de imperfeição que me atemoriza os passos. Pingo gotas de suor sobre este soalho. Suspendem-se na orla florida da pele e nunca chegam ao chão. Nunca chegam a lado nenhum. O miador dança em silêncio sobre as suas pegadas que não deixam marca na areia. A água do mar sabe que o miador possui a chave fictícia da entropia.
     Sónia finalmente surge-me alada com joana nos braços. Um vagar de morte desce sobre a terra. Nas trevas, um manto de solitude e saudosismo nos aquece o fúnebre gesto de amar. Olhamos a natureza e chegamos a conclusão que a morte é um inseto terráqueo numa prisão de âmbar.

19.08.16

A comitiva das letras.


Paulo José Martins


      Cabe-nos a nós descortinar o sentido efémero do viver. A pulso, subir a corda magmática que nos fere por dentro. E do naufrágio, desistir de um eu iletrado e dar aso à liberdade cognitiva do sentir.
      E pedro sempre a insistir na comitiva das letras. Diz que a procura deve ser feita pelo envolvente. Que eventualmente, encontrarei o animal truculento que habita o interior de mim. 
     Cortarei os pulsos do que morre dentro do meu peito e seguirei pelo caminho do obscurecer noturno, e de mim sairá a seiva cristalina de um novo manuscrito. Tudo o que fica são as letras. Nada de mim restará nesta infusão de extermínio. Nenhum afeto, nenhum gesto sobrará neste calcinante caminhar do ofício.

18.08.16

O infinito prescrever das letras.


Paulo José Martins

      As pegadas de joana são como borboletas de areia que vogam a espuma delinquente das ondas. Sinto crescer dentro de mim as raízes etéreas de um final feliz. Um espectro mortal no infinito prescrever das letras.
      Ao longe na fotografia surgem imagens de tertúlias debaixo dos abetos. Uma magnólia em tons de sépia surge ondulante ao cantor do vento. O que é que eu sei? Quem é que eu penso que sou?
      Dentro do manuscrito tudo é dor e esquecimento. Uma utopia disforme, compulsiva, permeada por um eterno retorno de sofrimento. As letras não distinguem um sofrimento de outro.

17.08.16

Viver, pulando de suicídio em suicídio.


Paulo José Martins

      Risco na areia da praia o título do manuscrito à espera que a bruma das ondas leve as letras consigo. Nisto joana continua a dançar deixando pegadas na areia em forma de borboletas que voam.
     Algures na espuma espessa das lágrimas, surge uma fotografia. Uma imagem disforme de um passo distópico. Nada daquilo aconteceu. Eu não existo na fotografia da minha cara. Nem naquele passado capturado nela. Sou apenas um momento, um ápice, um ritual de passagem no grande espetáculo das coisas.
     Tenho medo do escuro. Não propriamente do escuro mas da possibilidade de viver, pulando de suicídio em suicídio. Escondendo o corpo da morte de mim. Um eu que não quer mais desistir. Um eu que corre as ruas vazias da memória à procura dum vagabundo que tenha uma resposta fugaz.

16.08.16

Tudo parece andar para trás.


Paulo José Martins

      Subitamente, surgem as borboletam em voo planado. O vento assobia pela ponta das asas das gaivotas que voltam ao quadro original. Tudo parece andar para trás. Tudo parece afastar-se de mim. Deixando-me uma vez mais sozinho.
      Uma mão na minha face e sónia a olhar para mim. A sua face triste, produzindo lágrimas de cristal que, ao caírem no chão, estilhaçam-se em pequenos pedacinhos de vidro. Vai deixar-me, abandonar-me no caminho que ainda tenho de percorrer.
      Eu sou o rapaz que se perdeu dela.Talvez eu seja a pessoa que se perdeu dentro do que escrevia. Sou o escritor que escreve a sua própria vida e vive a vida que escreve. Sofro porque escrevo que sofro. E na angústia, corto os pulsos no gume afiado das palavras porque só assim, essas palavras podem existir no âmbito do manuscrito.

15.08.16

Não há espaço para respirar.


Paulo José Martins

      Por todo o lado surge uma escuridão líquida que se aproxima. A cada momento as paredes estão mais próximas, maiores, o espaço encolhe, diminui. Não há espaço para respirar. Não há espaço para existir dentro destes limites que nos impomos.

      Sinto que chove. Chovem umas gotas límpidas, cristalinas. Mata a sede, sustenta, pingam na pele e são absorvidas. Rejuvenescem a pele cicatrizada. O sangue pulsa de novo, alimentado pelas lágrimas de uma nuvem pintada no quadro do teto.
      No céu, um quadro, uma pintura e nela um teto, um espelho que reflete todos os estados de espírito. Algures aqui dentro alguém existe fora de si. Maior que si própria e envolta num desgosto infinito.